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Do amor nada sei


Do amor nada sei,se dele fizer prisão. Se for uma poesia bonita declamada sem alma ou verdade ou se não puder gritar ao mundo que amo, e amo em profundidade, não será amor. O homem é amor, ausência e falta dele. matamos e morremos por amor. Amamos causas, pessoas e animais, às vezes nos amamos também.
Ter uma pessoa ao lado como coisa,  possuir, conter ou refrear...não rimam com amar. Amar é saber o tempo, é errar a dose - exagerados sempre são os que amam, de verdade. Quem ama esquece o texto, perde a paciência  - e pede perdão. Chora e ri, assiste o filme chato sem dormir, "cola" na pessoa como carrapato. Liga várias vezes ao dia e fica calado (quer escutar) e se fala se atropela nos quês e nos porquês.  Você já amou sabe disso, sabe do que falo. Se amou e não foi correspondido ou foi ilusão, não lamente, você amou ao menos uma vez. Estrada sem rumo e viver sem amar, se a minha jornada terminar agora, terei completado todos os meus caminhos, pois levarei sempre comigo o amor que me preencheu...
e se no findar de meus dias olhar para trás, sorrirei e poderei abraçar meus demônios sem medo, pois com esse amor venci-os todos.

A palavra certa

Quando conheci você te ofereci uma flor, recurso universal dos enamorados. Plantastes então dúvidas e curiosidades. Logo te mostrei o meu (quase nunca usado) sorriso sincero e recebi em troca olhares de desconfiança.
Procurei as palavras, minhas e de outros para evidenciar minhas certezas e sentenças – em vão. Citei Leminsk, Bandeira e Whitman; cantei Baden, Cartola e tantos mais; todos os dias. Ouvi injustiças.
Por pecados meus de ontem, há muito esquecidos, pedi perdão e até pelos de um improvável amanhã. Quebrei barreiras dizendo a mim, ao mundo e a ti o quanto és e o que és. Encontrei no eco de minhas palavras não aceitas a certeza de que, se estava fadado a sofrer, seria por ti.
 - Tamanha era (é) minha certeza deste e de todos os sentimentos idos ao teu encontro que não encontram abrigo.
Existe a palavra certa para exprimir o que sentimos e pensamos? Existe o momento certo para saber amar?
Sempre achei que palavras são como roupas, muda-se o estilo e quem veste/escreve muda também. Não media o tempo, vivia a certeza da brevidade da minha existência e me agarrava as minhas convicções com tanta força e paixão que cada fim de dia era comemorado como um milagre em particular, verdadeiro momento da criação. O mais próximo de Deus que pude chegar.
Mudei minhas vestes, parei o tempo – tu, meu universo particular.  – com leis e regras próprias. Onde sou pequeno como uma gota, infinito e completo.
Você é meu lugar, minha terra onde os dias tem todas as horas, as tristezas e alegrias são infinitamente maiores.
 Não sou sombra, sou de carne e agora sangro.
Sou bom porque sou contigo
O que não fui e nunca quis ser.
Você pode não ser minha alma, mas ajudou a moldá-la.



Brilho dos meus olhos, alvo de meus desvelos...

"Uns tomam éter,outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria..."(M.bandeira)


E eu que, no decorrer dessa minha vida desregrada, loucos anos, tive muito e pouco dei de mim. Quis demais e nada (re)tive. Procurei na artificialidade momentânea da expirementação o que não encontrei em nenhum ser vivente. 

Sem promessas, ou aviso, apareceu e criou laços e me deixei entrar nesse estado de querer, poder ser e desejar, não voluptuosamente apenas, mas com um desejo irradiante a ofuscar meus olhos e queimar a pele.

Ainda sinto as dores e vivo muito do cinza
Ainda temo e sofro meus males
Mas no horizonte que contemplo
em verdade de sentimentos e quereres digo
Alma minha, está aqui: Você
Brilho dos meus olhos, alvo de meus desvelos...



   

Minha alma, minha palma

Fiz minhas as palavras alheias para reforçar e gritar ao mundo os sentimentos, que afloram a todo momento:
Funestas horas, assombradas horas
Aquelas, sem tua amada presença
Me abate cruel, a louca descrença
Ai, se me esqueces, ai, se me ignoras...

O mundo é nada, apenas solidão
Como um imenso mar em desespero
Para onde seguem rios em desterro
Sem causa ou verdadeira motivação

Tu és vida, sol que dá luz, aquece
Prémio a toda minha súplica, à prece
Feita com tanta fé, refrigério d’alma

E, há tanto encantamento, de tal forma
Mesmo no céu, não há lei ou norma
A me furtar teu amor, a minha palma
  
Vera Linden, São Leopoldo, Brasil - Retirado de: http://luaafricana.blogspot.com.br/2011/04/minha-alma-minha-palma.html

O Pequeno Príncipe (trecho)

E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa criar laços...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.

E eu não tenho necessidade de ti.

E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou a sua idéia:
- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
Mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

Behold the storm



Behold the storm
Spare your lost soul what scream in agony
One last hope
This is all you want (what I have?)
In the lonely nights
When the same things happen
The same nightmares returns
Your name
Cut my brain brushing…
Leave behind your armor
in the battleground…
What you heart was.
Still far way for me…
‘til the last mirror broken
‘til the last star fall in the horizon
Chasing you ‘till the end.
More than a single desire
One last will
One last hope

Hundred years

Não quero passar a vida como um novo Ahasuerus, Não negarei meus sentimentos a mim mesmo nem a ninguém, minha crença neles os fortalece. Eles existem em mim, se nutrem de minhas esperanças e sonhos. Um dia poderão ser aceitos – ou não. Mas até esse dia, por mim serão cuidados. Não serei condenado Morro por eles, mas não sem antes os deixar sair. Para ir de encontro ao templo do que desejam...

Até quando...


Perguntaram-me uma vez se já havia me apaixonado,
Respondi de pronto: - Sou apaixonado sempre
Vivo tudo o que sou e faço com paixão
Não há espaço para reflexão ou arrependimento
Não há amanhã.
Perguntaram-me então: você já se apaixonou por alguém? Ao que respondi:
O que é estar apaixonado?
É querer a ponto de sentir dor quando não se tem a pessoa por perto?
E passar a noite acordado olhando a pessoa dormir em nossos braços e querer que o momento não acabe?
E largar tudo pro alto só pra estar perto?
É esperar ouvir ao menos a voz da pessoa?
Falaram-me que paixão é só pele, que sentimento mesmo é amar.
Que querer bem é gostar e desejo é só carne (ou pele, ou paixão)
E quem assim como eu deseja na mesma medida em que quer bem?
Definirá uma simples palavra o meu sentimento?
Se minha vontade de ter quem quero junto a mim é tanta que no auge de minha eloquência,
Balbucio apenas: - saudades de ti...
Mas cheio de inferências, nuances, propósitos e esperanças muitas, todas.
Mesmo que dissesse mil vezes, ou mais...
Uma palavra não definiria o que sinto,
Êxtase, paz, deslumbramento.
Entrega e certeza, futuro.
Escolha, dentre elas a que quiser, pois em quem gosto,
Existe isso e mais...
Sinto tudo isso e mais...
Mais do que mereço
Até quando não sei
Por isso agora vivo tudo o que sou e faço com paixão
Ainda não há espaço para reflexão ou arrependimento
Mas agora há um amanhã.
Mas até quando, só você sabe...








Não existe o melhor modo de dizer a alguém o que estamos sentindo, nem o melhor momento.
Apenas há o dizer e o não dizer
Ficamos com medo, o coração dispara e a garganta trava.
E isso não tem idade
Seja poeta, tímido, ou rebelde.
Todos sabem dizer eu te amo, basta querer.
Ouse.

Callíope de olhos escuros




[Deidade, do latim tardio deitate]: Substantivo feminino. Divindade, nume; deus ou deusa.

Páginas em branco, mente vazia. Somente o nada. Limbo existencial que bruxuleia em minha cabeça como aqueles outdoors de filmes noire dos anos 80.  E mesmo tomado pelo desespero kafkiano que aflige aqueles infelizes a quem as ideias não fluem, como os pensamentos fragmentados de um velho bêbado na porta de um bar de segunda num bairro decadente de uma cidade qualquer. Nessa metamorfose que não ajuda em nada.
Um órgão atrofiado e doente que não trabalha com a facilidade de antes. Assim está minha mente. Tratava minhas poesias como a uma amante antiga. Só há muito perdera da poesia a inspiração a forma e a métrica. Não prendia as palavras em minha mente tempo suficiente para moldá-las em algo inteligível. Faltava o ritmo, som e fúria. Faltava paixão, suor e lágrimas. Não havia mais gozo. A minha relação com as palavras estava a muito acabada. Vivendo apenas de recordações do que fora antes, como uma velha prostituta lembra-se do quanto era disputada enquanto conta os minguados trocados dos poucos clientes que ainda consegue. Minha mais fecunda criação atualmente era o vazio... Uma eterna noite sem lua onde vivia apenas vis-à-vis os mesmos dias, num ciclo aparentemente sem fim... Nem os ecos do passado, Nem fantasmas a assombrar-me... Um templo sem acólitos, fiéis ou deuses.
Quando a encontrei, meus sentidos ficaram todos em alerta, ao mesmo tempo em que surgia aquela sensação de pertencimento, de lugar onde sempre se quis estar. Aquele frio que percorre a espinha e te prepara para o bote. Não eras espectro, era ser em forma de mulher, e era bela. Não era altiva, mas poderosa, derrotou minhas defesas em segundos, e me tomou o ar e a atenção com aquele vozerio altaneiro, comum aos que devem ser obedecidos e venerados. Tento retomar o controle, em vão. Sinto então aquele cheiro de fêmea, que descontrola a minha libido na hora.  - Deidade, demônio! Não sei, mas é tudo que consigo pensar enquanto acompanho serviçalmente a dança que fazes ao caminhar a minha frente como se tivesse sido criada apenas para isso – extasiar-me...
Não a peguei e prendi com rituais arcanos, apenas me aproximei, não cultuei sua marca, apenas chamei pelo teu nome ancestral não uma, mas muitas vezes.
 - O que queres de mim afinal? Perguntou. O que se pode querer de uma deidade, de uma musa? Respondi. - Seja minha inspiração oh deusa, que tua voz rouca me desperte desse sono sem sonhos. Quero sentir, e sorver cada nuance, e cada faceta tua quero contemplar. E você me concedeu conhecê-la. Ora vens a mim como deleite, ora em frenesi. Da tua forma que sei bem, quero tudo, desde o gosto do teu sexo em minha boca ao calor e pulsar célere do teu coração que sinto em minhas mãos quando toco teus seios. Guardo sempre a lembrança de teus olhos, esses dois oceanos profundos, escuros me questionando e conhecendo a todo momento, devastando a minha alma e ao mesmo tempo me esperando, convidando... E a tua boca, ah, ainda sinto cada beijo, ainda ouço tua voz a todo tempo me impelindo até teus braços completando o meu ciclo de deslumbramento por ti.
Não precisas de mim, o que julgas sentir de verdade é apenas capricho de tua vontade, és homem e homens enganam a si e aos outros. Um dia verás isso. Vives a repetir discursos assim como se quisesse convencer a mim  de ser essa a verdade e principalmente convencer a si mesma. Não desdigas o que em mim sei e tenho como verdade. Deposito em você uma fé que nunca tive em mim. Acredites nessa declaração de quem se apresenta diante de ti despido e refeito, e pela primeira vez completo. Devolveu-me a vontade, tornou-se minha inspiração. Só te peço que aceites, minha Callíope de olhos escuros, minha moura-encantada, em troca do muito que tens me dado que aceites em troca minha devoção, o melhor dos meus dias, o primeiro e último pensamento que tenho.
                                                                                                                 


MIRROR

MIRROR
 
I am silver and exact. I have no preconceptions. Whatever I see I swallow immediately Just as it is, unmisted by love or dislike. I am not cruel, just truthful - The eye of a little god, four cournered. Most of the time I meditate on the opposite wall. It is pink, with speckles. I have looked at it so long I think it is a part of my heart. But it flickers. Faces and darkness separate us over and over. Now I am a lake. A woman bends over me, Searching my reaches for what she really is. Then she turns to those liars, the candles or the moon. I see her back, and reflect it faithfully. She rewards me with tears and an agitation of hands I am important to her. She comes and goes. Each morning it is her face that replaces the darkness. In me she has drowned a young girl, and in me an old woman Rises toward her day after day, like a terrible fish. 


ESPELHO

         Sou de prata e exacto. Não faço pré-julgamentos. O que vejo engulo de imediato Tal como é, sem me embaçar de amor ou desgosto. Não sou cruel, simplesmente verídico — O olho de um pequeno deus, de quatro cantos. Reflicto todo o tempo sobre a parede em frente. É rosa, manchada. Fitei-a tanto Que a sinto parte do meu coração. Mas cede. Faces e escuridão insistem em separar-nos. Agora eu sou um lago. Uma mulher se encosta a mim, Buscando na minha posse o que realmente é. Mas logo se volta para aqueles farsantes, o brilho e a lua. Vejo as suas costas e reflicto-as na íntegra. Ela paga-me em choro e em agitação de mãos. Eu sou importante para ela. Ela vai e vem. A cada manhã a sua face alterna com a escuridão. Em mim se afogou uma menina, e em mim uma velha Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrível.

A ti Baal...

Te ofereço O calor de nossas horas O melhor de meus dias A vontade de ti No desejo... De mais um momento e de Palavras e toques... Nossos iniguáveis olhares cúmplices. Ah tempo, cruel e implacável Porque não és do tamanho da minha vontade? Por que não o posso controlar ? Nesse mundo temos distância e em mundos separados vivemos mas tão próxima você está de mim como o calor do dia e no contar lento e inexorável do tempo eu espero, desejo e fantasio...

Erro


Erro é teu.
Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração
Nem foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão
Um querer indiferente,
Em tua presença vivo
Nulo se estavas ausente.
E se ora me vês esquivo
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés
É que, — como obra de um dia
Passou-me essa fantasia.
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras
Teu vão amor de ti mesma
 Essa pêndula gelada
Que chamavas coração
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender
Foram baldados tentames
Saiu contra ti o azar
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro...Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...

(Machado de Assis, in 'Crisálidas')

O melhor lugar

Horas e horas Entre aqui e você O que a distancia mede, o tamanho da minha vontade? Cheiro bom, tuas unhas, minhas mãos, nossas bocas... E nesse ir e vir Sobra distancia, falta presença. .. Mas fica a certeza Da necessidade de te sentir Suando, gemendo e amando... Saudades de ti Saudades de nós e Querendo mais uma vez me encontrar No conforto das tuas ancas.

Retornar, regressar...

Ainda tenho o mesmo nome, E as minhas tatuagens ainda são as mesmas Só não tenho o mesmo olhar... Ao menos não pra você Ouço a mesmas músicas, vivo a mesma vida (?!). Como sempre foi... Ando os mesmos passos tortos E no meu falar engraçado conto às pessoas Os mesmos enganos e alegrias E elas ainda sorriem comigo... Mudo nada, mudo não... Mundo igual ao de ontem Conto as mesmas mentiras e falo das mesmas alegrias voláteis e as pessoas ainda me ouvem. Morreram as flores que você plantou, mas ficou a terra fértil. Mudo nada, mudo não. Mundo igual ao de ontem Só mudou você... Do meu coração Mudou pra longe... Fique por aí Só que agora vou mudar... Não por ti Morada nova é o meu coração Mesma música, mesma cama, novo amor, Menos mentiras, menos você!

Um dia qualquer

I
Será preciso rir, abraçar, chorar de dor ou de falsidade
Contar as horas num relógio hipotético
Estragar o momento arrotando arrogância
Pedir o que não pode comer
Definindo o vazio que não sente
Numa tela de TV onde só passa
Propaganda barata

II
Onde estará teu sorriso?
Teus olhos coçam e doem...
Não dormes... dias ou horas..não sabes
Sangrando, sangrando
Perderás antes do rumo, a razão
Mas não a esperança
De me definir...
Sempre especulamos sobre o que/quem parecemos entender.

(J. Cláudio Soares in: Um dia qualquer)

Medo...

"A maioria das pessoas entende de forma errada as coisas tem medo, mas mesmo assim gostam de analisá-las...
os crentes procuram entender deus/deuses, e atribuem a este(s) todos os "castigos" e "recompensas" que
recebem durante suas vidas...
os céticos procuram evidências, se apegam apenas ao perceptível pelos sentidos..por mais que estes muitas vezes se enganem...
apesar das aparentes diferenças eles estão na mesma busca,busca por respostas...mas continuam fazendo as
perguntas erradas...Há muito desisti de ter medo, e isso me assusta" 
                                                            
                                                                                                                                          (J.C - abril 2003)

O que resta de mim...

Minha garganta dói, na falta da voz minha mão fala por mim, só que sem a educação e afetação daquela. Enquanto a voz é agradável e procurada, desejada por quase todos, a mão é áspera, calosa, de unhas roídas e sujas, nunca elogiada, apenas manipulada como seu destino ordena. mas como tudo que é oprimido e sofrido durante muito tempo, sabe muito bem o que dizer quando tem direito a voz, direito a vez. Não diz o belo, nem o correto, fala do torto, do roto, do abjeto. Fala  do que não aparece na novela ou nos reclames de cerveja. Não agrada a ninguém, nem a si mesma, posto que apenas abre portas, serve aos outros, nem um afago pode fazer a si própria, depende de suas iguais e da vontade alheia que está sempre preocupada com outros assuntos. Aproveita então esse momento e crie, grite, subverta tua condição de instrumento e mude a tua sina! Seja agora a portadora, a voz que fala solitária como o próprio vício, mas que fala por muitos...

Investígio

Olfato ou tato
um cheiro falso
a brisa traz

um brilho antigo
brinca comigo
de anos atrás


(Paulo Leminski.)


enviado por cris pessoa( foxcisco@hotmail.com)
 

Desire


   Sentindo o pesar do momento, me assombro ao perceber sons e cheiros que me são acolhedores, e esses ecos do passado, tão distantes, mas tão dolorosos ainda me fazem lembrar de quando existiam os dias e a luz, mas lembro do que existe agora e olho ao meu redor e estranho o que vejo como se aqui já não fosse mais a minha morada. Não sei o que faz com que me sinta assim, e em agonia saio pela noite nesse lugar, sem tempo e memória vagueio, só tendo a certeza de que teu corpo está a um universo(ou um apagar de uma vela)de distancia, e distante assim ficará até que a noite me traga o estranho/estranha que me levará mais uma vez para perto de você.  

Nunca amamos ninguém [Fernando Pessoa]

Nunca amamos ninguém

Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a idéia que
fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma
é a nos mesmos - que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual
buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa.
O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a
perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não
disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão
incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que
se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria
arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois
'amo-te' ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer
dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura,
uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões
que constitui a atividade da alma.

Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em
claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de se
exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não
nasceram de coisa alguma - de coisa alguma, pelo menos, que me
esteja na platéia da consciência. Talvez aquela desilusão do
caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer
frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos
estrangeiros, talvez ate uma vaga náusea que trago comigo e me
não expeli [?] fisicamente...

Disse o mal escoliasta de Virgilio. É de compreender que
sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.