Até quando...


Perguntaram-me uma vez se já havia me apaixonado,
Respondi de pronto: - Sou apaixonado sempre
Vivo tudo o que sou e faço com paixão
Não há espaço para reflexão ou arrependimento
Não há amanhã.
Perguntaram-me então: você já se apaixonou por alguém? Ao que respondi:
O que é estar apaixonado?
É querer a ponto de sentir dor quando não se tem a pessoa por perto?
E passar a noite acordado olhando a pessoa dormir em nossos braços e querer que o momento não acabe?
E largar tudo pro alto só pra estar perto?
É esperar ouvir ao menos a voz da pessoa?
Falaram-me que paixão é só pele, que sentimento mesmo é amar.
Que querer bem é gostar e desejo é só carne (ou pele, ou paixão)
E quem assim como eu deseja na mesma medida em que quer bem?
Definirá uma simples palavra o meu sentimento?
Se minha vontade de ter quem quero junto a mim é tanta que no auge de minha eloquência,
Balbucio apenas: - saudades de ti...
Mas cheio de inferências, nuances, propósitos e esperanças muitas, todas.
Mesmo que dissesse mil vezes, ou mais...
Uma palavra não definiria o que sinto,
Êxtase, paz, deslumbramento.
Entrega e certeza, futuro.
Escolha, dentre elas a que quiser, pois em quem gosto,
Existe isso e mais...
Sinto tudo isso e mais...
Mais do que mereço
Até quando não sei
Por isso agora vivo tudo o que sou e faço com paixão
Ainda não há espaço para reflexão ou arrependimento
Mas agora há um amanhã.
Mas até quando, só você sabe...








Não existe o melhor modo de dizer a alguém o que estamos sentindo, nem o melhor momento.
Apenas há o dizer e o não dizer
Ficamos com medo, o coração dispara e a garganta trava.
E isso não tem idade
Seja poeta, tímido, ou rebelde.
Todos sabem dizer eu te amo, basta querer.
Ouse.

Callíope de olhos escuros




[Deidade, do latim tardio deitate]: Substantivo feminino. Divindade, nume; deus ou deusa.

Páginas em branco, mente vazia. Somente o nada. Limbo existencial que bruxuleia em minha cabeça como aqueles outdoors de filmes noire dos anos 80.  E mesmo tomado pelo desespero kafkiano que aflige aqueles infelizes a quem as ideias não fluem, como os pensamentos fragmentados de um velho bêbado na porta de um bar de segunda num bairro decadente de uma cidade qualquer. Nessa metamorfose que não ajuda em nada.
Um órgão atrofiado e doente que não trabalha com a facilidade de antes. Assim está minha mente. Tratava minhas poesias como a uma amante antiga. Só há muito perdera da poesia a inspiração a forma e a métrica. Não prendia as palavras em minha mente tempo suficiente para moldá-las em algo inteligível. Faltava o ritmo, som e fúria. Faltava paixão, suor e lágrimas. Não havia mais gozo. A minha relação com as palavras estava a muito acabada. Vivendo apenas de recordações do que fora antes, como uma velha prostituta lembra-se do quanto era disputada enquanto conta os minguados trocados dos poucos clientes que ainda consegue. Minha mais fecunda criação atualmente era o vazio... Uma eterna noite sem lua onde vivia apenas vis-à-vis os mesmos dias, num ciclo aparentemente sem fim... Nem os ecos do passado, Nem fantasmas a assombrar-me... Um templo sem acólitos, fiéis ou deuses.
Quando a encontrei, meus sentidos ficaram todos em alerta, ao mesmo tempo em que surgia aquela sensação de pertencimento, de lugar onde sempre se quis estar. Aquele frio que percorre a espinha e te prepara para o bote. Não eras espectro, era ser em forma de mulher, e era bela. Não era altiva, mas poderosa, derrotou minhas defesas em segundos, e me tomou o ar e a atenção com aquele vozerio altaneiro, comum aos que devem ser obedecidos e venerados. Tento retomar o controle, em vão. Sinto então aquele cheiro de fêmea, que descontrola a minha libido na hora.  - Deidade, demônio! Não sei, mas é tudo que consigo pensar enquanto acompanho serviçalmente a dança que fazes ao caminhar a minha frente como se tivesse sido criada apenas para isso – extasiar-me...
Não a peguei e prendi com rituais arcanos, apenas me aproximei, não cultuei sua marca, apenas chamei pelo teu nome ancestral não uma, mas muitas vezes.
 - O que queres de mim afinal? Perguntou. O que se pode querer de uma deidade, de uma musa? Respondi. - Seja minha inspiração oh deusa, que tua voz rouca me desperte desse sono sem sonhos. Quero sentir, e sorver cada nuance, e cada faceta tua quero contemplar. E você me concedeu conhecê-la. Ora vens a mim como deleite, ora em frenesi. Da tua forma que sei bem, quero tudo, desde o gosto do teu sexo em minha boca ao calor e pulsar célere do teu coração que sinto em minhas mãos quando toco teus seios. Guardo sempre a lembrança de teus olhos, esses dois oceanos profundos, escuros me questionando e conhecendo a todo momento, devastando a minha alma e ao mesmo tempo me esperando, convidando... E a tua boca, ah, ainda sinto cada beijo, ainda ouço tua voz a todo tempo me impelindo até teus braços completando o meu ciclo de deslumbramento por ti.
Não precisas de mim, o que julgas sentir de verdade é apenas capricho de tua vontade, és homem e homens enganam a si e aos outros. Um dia verás isso. Vives a repetir discursos assim como se quisesse convencer a mim  de ser essa a verdade e principalmente convencer a si mesma. Não desdigas o que em mim sei e tenho como verdade. Deposito em você uma fé que nunca tive em mim. Acredites nessa declaração de quem se apresenta diante de ti despido e refeito, e pela primeira vez completo. Devolveu-me a vontade, tornou-se minha inspiração. Só te peço que aceites, minha Callíope de olhos escuros, minha moura-encantada, em troca do muito que tens me dado que aceites em troca minha devoção, o melhor dos meus dias, o primeiro e último pensamento que tenho.
                                                                                                                 


MIRROR

MIRROR
 
I am silver and exact. I have no preconceptions. Whatever I see I swallow immediately Just as it is, unmisted by love or dislike. I am not cruel, just truthful - The eye of a little god, four cournered. Most of the time I meditate on the opposite wall. It is pink, with speckles. I have looked at it so long I think it is a part of my heart. But it flickers. Faces and darkness separate us over and over. Now I am a lake. A woman bends over me, Searching my reaches for what she really is. Then she turns to those liars, the candles or the moon. I see her back, and reflect it faithfully. She rewards me with tears and an agitation of hands I am important to her. She comes and goes. Each morning it is her face that replaces the darkness. In me she has drowned a young girl, and in me an old woman Rises toward her day after day, like a terrible fish. 


ESPELHO

         Sou de prata e exacto. Não faço pré-julgamentos. O que vejo engulo de imediato Tal como é, sem me embaçar de amor ou desgosto. Não sou cruel, simplesmente verídico — O olho de um pequeno deus, de quatro cantos. Reflicto todo o tempo sobre a parede em frente. É rosa, manchada. Fitei-a tanto Que a sinto parte do meu coração. Mas cede. Faces e escuridão insistem em separar-nos. Agora eu sou um lago. Uma mulher se encosta a mim, Buscando na minha posse o que realmente é. Mas logo se volta para aqueles farsantes, o brilho e a lua. Vejo as suas costas e reflicto-as na íntegra. Ela paga-me em choro e em agitação de mãos. Eu sou importante para ela. Ela vai e vem. A cada manhã a sua face alterna com a escuridão. Em mim se afogou uma menina, e em mim uma velha Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrível.

E todas as coisas...

Essa minha vida, como numa pintura de Pollock, abstrata e visceral, sem rumo...início, meio ou fim.

A ti Baal...

Te ofereço O calor de nossas horas O melhor de meus dias A vontade de ti No desejo... De mais um momento e de Palavras e toques... Nossos iniguáveis olhares cúmplices. Ah tempo, cruel e implacável Porque não és do tamanho da minha vontade? Por que não o posso controlar ? Nesse mundo temos distância e em mundos separados vivemos mas tão próxima você está de mim como o calor do dia e no contar lento e inexorável do tempo eu espero, desejo e fantasio...

Erro


Erro é teu.
Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração
Nem foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão
Um querer indiferente,
Em tua presença vivo
Nulo se estavas ausente.
E se ora me vês esquivo
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés
É que, — como obra de um dia
Passou-me essa fantasia.
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras
Teu vão amor de ti mesma
 Essa pêndula gelada
Que chamavas coração
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender
Foram baldados tentames
Saiu contra ti o azar
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro...Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...

(Machado de Assis, in 'Crisálidas')

O melhor lugar

Horas e horas Entre aqui e você O que a distancia mede, o tamanho da minha vontade? Cheiro bom, tuas unhas, minhas mãos, nossas bocas... E nesse ir e vir Sobra distancia, falta presença. .. Mas fica a certeza Da necessidade de te sentir Suando, gemendo e amando... Saudades de ti Saudades de nós e Querendo mais uma vez me encontrar No conforto das tuas ancas.