Nunca amamos ninguém [Fernando Pessoa]

Nunca amamos ninguém

Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a idéia que
fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma
é a nos mesmos - que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual
buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa.
O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a
perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não
disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão
incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que
se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria
arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois
'amo-te' ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer
dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura,
uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões
que constitui a atividade da alma.

Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em
claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de se
exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não
nasceram de coisa alguma - de coisa alguma, pelo menos, que me
esteja na platéia da consciência. Talvez aquela desilusão do
caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer
frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos
estrangeiros, talvez ate uma vaga náusea que trago comigo e me
não expeli [?] fisicamente...

Disse o mal escoliasta de Virgilio. É de compreender que
sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.

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